Uma das possibilidades abertas a todos os capacitados à leitura, ao engrandecimento significativo da alma é a exploração da realidade através da literatura. Fiódor Dostoiévski foi um dos grandes escritores responsáveis por nos educar a realidade de maneira explícita. Recordações da Casa dos Mortos é um título de enorme relevância pois aponta a importância do sentido da vida através de uma característica social altamente impactante: a atividade laboral inútil.
Na história, os detentos de um presídio na Sibéria são obrigados a fazer trabalhos inúteis. Desmontar um barco encalhado para nada, ou levar carrinhos-de-mão carregados de areia, esvaziá-los, tornar a enchê-los com a mesma areia e trazê-los de volta são alguns dos exemplos. Os presos enlouqueciam. A metáfora de Dostoiévski não é vã, pois ela espelha a nossa condição. Produzimos para outrem numa sequência de processos que não podemos extrair qualquer sentido. O sentido pertence ao outro, é do Estado e das outras forças que organizam o mundo humano. Os presos siberianos eram como mortos pois trabalhavam sem utilidade alguma. Escapar da prisão é fundamental para atar qualquer tipo de ligação com a realidade, mesmo que o escape não seja transpor as muralhas, mas trabalhar por algum motivo. A fuga se dá essencialmente pelo contato com grandes mentes que com muito labor perceberam o que é, sem eles, praticamente imperceptível.

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